ATOS DA CRIAÇÃO


Para qualquer artista, arte é, antes de tudo, uma compulsão muitas vezes incontrolável. O seu fazer transcende tudo. Não se escolhe ser artista, se é, simplesmente. Está no sangue, está nos genes, está em nossa vasta herança cultural de milênios. Somos sobreviventes das cavernas onde estivemos exercendo nosso ofício e aprisionando o mundo mágico ao redor em nossos riscos e traços. Arte é, como sempre foi, uma necessidade vital, e está em tudo que nos envolve, nas roupas, nas máquinas, na arquitetura, no mobiliário, na música, enfim, em cada objeto ou coisa fabricada ou emanada do gesto criativo de um ser humano.

Manifestações de arte, com sua beleza, magia e espiritualidade, são gritos eloqüentes de nossa alma. Nenhuma coletividade sobrevive sem os seus artistas, e nas mais profundas raízes das sociedades, em cada país e nação, residem os gestos que criam todos os nossos universos.

Nossa ancestral natureza é a do “homo faber” - um fabricante de coisas.

Na realidade, em todo ser humano existe um artista, na medida em que cada um de nós é, simultaneamente, gerador e destinatário do fazer artístico. Qualquer obra de arte só o é quando encontra eco no nosso sentir, ao ganhar vida eterna em nossa sensibilidade. Ao habitar, finalmente, a nossa mais abrangente percepção.

Há quarenta anos atrás fiz minha primeira escultura – um pequeno totem em gesso, tirado das inconsciências de minha mente. Foi meu primeiro passo para ser artista, o que só vim a fazer, de forma completa e exclusiva, dez anos após. Durante muito tempo trabalhei com aço inoxidável e epóxi, em relevos, máscaras e esculturas. Nesse longo exercício do fazer artístico, fui da complexidade de formas e superfícies laboriosamente trabalhadas, para um trabalho onde as formas extremamente simplificadas tinham superfícies lisas e despojadas, feitas em bronze.

Das formas compactas, com volumes solidamente apoiados na terra, passei para a criação de esculturas alongadas, que se desprendiam rumo ao alto, com destinação monumental.

Muitas dessas esculturas que originalmente seriam modelos para futuras peças monumentais foram feitas em pequenos formatos, com a edição de múltiplos em tiragens de 20, 50 ou 100 peças. Em bronze polido, na sua maioria, ganharam repercussão nacional ao terem suas imagens transmitidas em rede de televisão, protagonistas que foram de uma novela, obra de ficção, que relatava a vida de um escultor.

Acredito que o material que se usa para a criação é componente determinante do resultado artístico final. Ao fazer arte com qualquer material você “fala” a linguagem que lhe é permitida pela circunstância material. Assim, chapas planas de aço, alumínio ou ferro, limitam a linguagem final a planos e volumes com superfícies determinadas pelo material original. Pode ser até uma limitação, mas na verdade permite saltos de criatividade ao se compor novas formas. Já o mármore e pedras em geral levam o artista a fronteiras ainda mais abrangentes, pois não se pode perder de vista o efeito da gravidade real nas peças, suas fraquezas ou ainda as dificuldades físicas proporcionadas na sua produção.

Essas considerações e experimentações me levaram a fazer, em determinada época, criações esculturais com papel colorido e ainda caixas de acrílico com areia e rochas diversas, que costumo recolher sem nenhum objetivo imediato, somente pela beleza de suas formas.

É de se observar ainda, pelo que pude inferir do uso dos mais diversos materiais para a criação, que cada um deles se constitui, de uma forma ou outra, numa determinante que modifica e reforma o ato criador original, o que ocorre muito pouco com o desenho.

Sobre o ato de criação propriamente dito, os longos períodos nos anos que passei em contato com a produção artística, produziram um efeito profundo no meu universo mental. À medida que trabalhava fui observando uma diminuição contínua do diálogo interno que normalmente constitui o cotidiano dos nossos pensamentos. O verbo obsessivo foi dando lugar a um silêncio interno cada vez mais extenso, de forma que se tornou comum trabalhar durante horas seguidas numa peça sem ter pensamentos verbais.

Vez por outra formas visuais e cores surgiam, quase de forma casual, sem esforço. Passei a ser um silencioso expectador de mim mesmo e pude abrir novos canais de percepção espiritual e aprender a sabedoria do corpo, capaz de conduzir energias criativas e agir com toda a sua totalidade.


Arte, para mim, é pura magia.


Holoassy Albuquerque
Do livro "Atos da Criação"