O PROCESSO DE CRIAÇÃO


Acredito, a partir de minha experiência no fazer artístico, que todo ato de criação, seja ele qual for, é precedido por um silêncio interior profundo, onde toda a nossa atenção fica em estado de alerta total com a mente focada num vazio absoluto. Em seguida surge um impulso, à princípio indefinido, quando se misturam vagos sentimentos, sensações e movimentos, onde uma torrente de energia impeli o artista para a criação de uma nova obra.

Até esse momento, não existe um estado de consciência plena do que vai ser feito. É um ímpeto. Um desejo ainda não compreendido na sua totalidade. Um novo estado mental se faz presente e o artista se torna um atento observador de si mesmo, dos seus atos e movimentos, do material que se apropria para a produção e na escolha dos instrumentos de trabalho.

É um ritual e como tal já incorporado ao constante fazer. Esse procedimento é realizado pelo corpo, que já adquiriu, com a repetição e o passar do tempo, uma consciência própria, que liberta a mente para ainda permanecer num estado de percepção aguda. Na verdade você sente uma quase euforia nesses momentos. Numa fração de segundo, num átimo, surgem vagas figurações sobre o trabalho que vai ser feito. São fugidias sensações visuais que se desenham na mente e logo se desvanecem. Dessas imagens mentais surge aos poucos o arcabouço geral do que vai ser feito – um desenho, um quadro, uma escultura ou qualquer outra forma de criação.

Segue-se um período de absoluta tranqüilidade interior, uma passividade contida confrontada com uma crescente energia física e mental. Nesse instante, para todos os efeitos, a obra ainda a ser produzida já existe, embora sua percepção plena não esteja ainda amparada pela racionalização do pensamento verbal.

Começado o trabalho o artista se torna um espectador do que faz e deixa fluir os movimentos do seu corpo. Com todos os sentidos em alerta, a mente continuará seu trabalho criativo associando-se em expectativa na visão da obra sendo criada, contando com as decisões dos sentidos corporais que vão resolvendo problemas envolvendo espaços, planos, confrontos de volumes, jogo e equilíbrio de cores, composição e por fim vislumbra-se a natureza da obra. Só então um processo cerebral baseado em pensamentos verbalizados, que até aqui pouco apareciam, substituídos por imagens mentais, se faz mais presente. O verbo então, nomeia, qualifica, emite juízos de valor.

No entanto, a existência da obra criada só será plena neste mundo na medida que puder sensibilizar espíritos, traduzir-se em emoções sentidas por outros, quaisquer que sejam as formações culturais dos observadores

Na sua totalidade, todo um processo de criação artística é uma forma de transcendência, um portal para a meditação, um exercício de superação espiritual que direciona o nosso viver para para percepção muito além dos nossos usuais sentidos.

E finalmente acredito ainda, que viver, na realidade, é o maior dos atos de criação.


Holoassy Albuquerque
Outubro de 2006