UPSIDE DOWN

DE CABEÇA PARA BAIXO

No Universo, nada está em cima ou em baixo.

No entanto, em determinado período da história, os mapas produzidos pelas nações dominantes do hemisfério norte nos impuseram, através de séculos, uma visão cultural de flagrante superioridade, recorrendo inclusive a distorções onde seus paises se apresentam com territórios bem maiores do que na realidade têm, em contraste com paises do hemisfério sul que além de estarem em baixo são apresentados bem menores do que na verdade são.

O tema central dessa exposição é o questionamento desse conceito cultural, arraigado em toda a humanidade.

É uma exposição antes de tudo, conceitual, onde os meios de expressão plástica e tecnológica usados são, notadamente, um apoio visual e mental para estabelecer suportes que sirvam de base a reflexões mais profundas.

O que estará sendo visto e analisado nessa exposição é o reflexo no inconsciente coletivo da presença do homem no espaço, onde todas as referências visuais e filosóficas já foram duramente atingidas (embora não totalmente percebidas), pois o cerne de muitas de nossas filosofias, quer de natureza política ou religiosa, tem como um dos seus pilares mais atuantes, a visão de um mundo onde o alto e o baixo, e portanto, o superior e o inferior, têm notória importância, com suas hierarquias, posicionamentos, céus e infernos variados.

A ida ao espaço, sem as limitações de nossa visão terrena, vai produzir um novo homem. Terá um reflexo na mente humana análogo à revolução causada pela visão de um mundo esférico, ao sepultar de vez o conceito do mundo plano.

Virando simbólica e realisticamente o mundo de cabeça para baixo, como será feito nessa exposição, colocando o Brasil na parte superior do planisfério (como já esteve), induziremos reflexões renovadoras.

Estamos ainda imersos no contexto histórico desse final do século, sentindo a plena efervecência do choque cultural representado pelas mudanças contínuas de natureza política, econômica e social notadamente, que se fazem com a rapidez que não encontramos paralelo em nenhum tempo histórico anteriormente vivido pela humanidade.

Não temos portanto, ainda, condições plenas para analisar com total profundidade (e mesmo isenção) o impacto da ida do homem ao espaço nos planos do psiquismo coletivo e individual, bem como as implicações filosóficas desse feito, não só porque somos os sujeitos participantes desse processo mutante, como, principalmente pela constatação que seus efeitos se farão mais notórios ainda ao longo de anos futuros.

Mesmo assim não podemos deixar de vislumbrar mudanças profundas e revolucionárias no inconsciente coletivo, na medida em que arquétipos estabelecidos entre os povos serão destruidos e renovados, mostrando realidades que terão profundos reflexos na visão que temos de nós mesmos, de outras nações e do mundo como um todo.

Na ida do homem ao espaço, perdidos no lirismo azul da Terra antevisto por Gagarin, as populações não perceberam a visão de um novo mundo onde todas as referências se mostraram renovadas, onde nada está em baixo ou em cima, e, portanto, nenhum país é espiritualmente superior ou inferior a outro, mas diferente em suas múltiplas formas de expressão vital.

É nesse mundo cada vez mais interdependente, unitário, global, onde se privilegia o que é diferente, que posicionamos essa visão brasileira da nova humanidade, criativa, aberta, tolerante, receptiva a novas idéias, e, sobretudo, fraterna.

Holoassy Albuquerque


Exposição em preparo.